LIXO

Posted: 5 de Março de 2011 in Literatura

LIXO

por Manuel Augusto Araujo


04/03/2011
tags: comunicação social, crise, socialites

Nunca supus que, algum dia, viria a falar deste assunto.
Depois de mais de oito dias em que jornais, rádios e televisões abriam ou tinham na primeira página relatos minuciosamente sórdidos sobre o assassinato de um homúnculo por um jovem pouco recomendável, o assunto volta a adquirir relevância nos meios de comunicação social, agora espreitando o buraco da fechadura do julgamento.
Na primeira volta era indignante o tempo que se ocupava, o dinheiro que se gastava em directos e enviados especiais a Nova Iorque para fazerem a exposição da miséria humana. Registe-se que durante esse período, enquanto se gastavam páginas de jornais, horas de rádio e televisão com essa merda, a morte de Victor Alves, um capitão de Abril influente em todo o curso da Revolução, foi despachada quase por obrigação. Uma náusea.
Novamente as peripécias do caso assaltam a comunicação social. A cambada de jornalistas, quando não estão dedicados à manipulação política, seja nacional ou internacional, dedica-se de alma e coração a esse assunto ou assuntos correlactos do mais diverso teor, da política ao futebol. Nenhum deles, os corpos redactoriais são todos cúmplices nessa situação, tem a coragem de dizer que se trata de um crime efectuado por um jovem que se pendurou num idoso execrável, para explorar os seus supostos contactos nacionais e internacionais com a sofreguidão de iniciar uma carreira na moda, onde pensava conseguir obter dinheiro fácil e rápido. Nenhum desses labruscos jornalistas tem a coragem de dizer que o suposto colega ganhava a vida e adquiria influência mexericando as detracções dos excrementos que inundam as mundanidades. Nenhum jornalista se insurgiu contra aquela ideia calhorda de dar nome a uma rua de Lisboa ao assassinado. Também nenhum fez sequer uma nota de rodapé quando os deputados municipais por Lisboa do PSD e do CDS, na mesma sessão em que foi aprovado por unanimidade atribuir o nome de Vasco Morgado a uma rua de Lisboa, chumbaram a proposta do PCP de o nome de Rogério Ribeiro, um intelectuais relevante, um dos maiores pintores portugueses do século XX, um dos reformadores do ensino de Belas-Artes, um dos grandes divulgadores da arte contemporânea, figurar numa rua de Lisboa. Muito seguramente era nessas bandas que pensariam, não sem razão, colher apoio para iniciativa tão malcheirosa.
Isto mais a crise económica, social e política tornam o ar irrespirável. Fazem de Portugal um lugar mal frequentado, mal cheiroso. Se não fosse a vontade de fechar o punho, de lutar, de não ficar para trás deveríamos esvaziar o país, emigrar para a lua ou melhor, para nunca desistirmos de lutar, sonhar é que damos o braço a Manuel Bandeira, vamos retemperar forças físicas e mentais, com ele iremos para Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

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